Mortes evitáveis, retorno de doenças? O preço da baixa vacinação no RS

  • 19/07/2025
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Mortes evitáveis, retorno de doenças? O preço da baixa vacinação no RS

Foto: Duda Fortes / Agencia RBS

— Como mãe que perdeu um filho de um ano e três meses por falta de informação e de uma vacina no particular, me revolta só em pensar que hoje possam existir crianças que não são vacinadas. Que não fazem nem o que o SUS fornece de graça — desabafa Juliane Fetzer, 36 anos, mãe de Arthur.

Em 2023, o filho da moradora de Estância Velha foi vítima de uma infecção pela bactéria meningococo do tipo B, para a qual não há vacina disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), apenas na rede privada. Com todos os imunizantes obrigatórios em dia, mas sem esta vacina específica, a criança morreu em três dias.

Para além de consequência individual extrema, a ausência de imunização pode gerar impactos na saúde coletiva – como se verifica no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Juliane Fetzer / Arquivo pessoalArthur, de um ano e três meses, morreu em 2023 vítima do meningococo do tipo B, para o qual há vacina disponível somente na rede privada.Juliane Fetzer / Arquivo pessoal

Como outros Estados, o RS enfrentou um aumento de doenças respiratórias e casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2025, devido principalmente aos vírus influenza e sincicial respiratório (VSR), conforme aponta o InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A situação levou à grande procura pelos serviços, agravando a crise na saúde no Estado, com falta de leitos e superlotação.

Uma das principais causas do cenário é a baixa adesão à vacinação. Em junho, não imunizados chegaram ao patamar de 94% das mortes e 92% das hospitalizações de SRAG por influenza, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde do RS (SES). A vacina, entretanto, já está disponível gratuitamente no SUS para toda a população desde 15 de maio.

O desinteresse de parte da população não é exclusividade da vacina contra gripe. Historicamente considerado referência em imunização, o Brasil vem enfrentando dificuldades com as coberturas vacinais de diferentes imunobiológicos nos últimos anos. A queda se acentuou após a pandemia e, embora tenha apresentado melhora nos anos recentes, segue desafiadora.

As que mais preocupam

Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde é um dos maiores em saúde pública do mundo e disponibiliza gratuitamente à população brasileira 30 vacinas pelo SUS. Os imunizantes protegem contra uma gama de doenças imunopreveníveis, tais como HPV, dengue, hepatite, febre amarela e meningite. Os imunobiológicos são oferecidos no Calendário Nacional de Vacinação em todas as etapas da vida.

As coberturas vacinais no Brasil apresentaram uma queda relevante nos últimos anos, e vários esforços vêm sendo empregados para melhorá-las, ressalta Paulo Gewehr, médico infectologista, representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e supervisor do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento.

— Os dados que nós temos de 2023 para 2024 mostram uma melhora quase que em todas as coberturas vacinais. Algumas vacinas ainda não tiveram essa melhora, mas, em geral, houve avanço. Os dados preliminares de 2025 ainda estão abaixo de 2024, mas tem de ser dada uma atenção, para ver se há espaço e tempo ainda para recuperar o mesmo patamar de cobertura e avançar mais — avalia.

Do ponto de vista da saúde individual, todos que podem receber vacina devem ser imunizados; coletivamente, embora a cobertura ideal seja de 100%, com cerca de 90% a 95%, a depender da doença, já há proteção significativa.

Há conquistas e desafios, na avaliação de Diego Falci, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e infectologista do Hospital São Lucas da PUCRS. O cenário não é de total carência, e houve avanços. O RS registra taxas de cobertura vacinal superiores à média nacional. Tanto Estado quanto país, porém, ainda enfrentam lacunas importantes.

Observação semelhante é feita por Luiz Vicente Rizzo, médico imunologista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretor de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, que aponta que as coberturas geram preocupação.

As vacinas administradas ao nascer apresentam coberturas altas – o problema é a manutenção das taxas nos anos seguintes:

— Temos melhorias a ser feitas, no Brasil o resultado não é desastroso, mas está aquém do que gostaríamos.

O Brasil, entretanto, voltou a ser um dos países com mais crianças sem nenhuma vacina em 2024, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). Embora o país tenha atuação notória em prol da vacinação, a disponibilização dos dados relativos às coberturas vacinais é descentralizada em diferentes sistemas, o que dificulta a compreensão do panorama.

Da gripe à tríplice viral

A vacina contra a gripe (influenza) está entre as coberturas que mais preocupam, pois deve ser tomada anualmente, assim que disponibilizada, para que a população esteja protegida a tempo do período de maior circulação do vírus. No RS, a cobertura para os grupos prioritários está em 49,7%, levemente maior do que no Brasil (44,5%) – resultado muito aquém do ideal e que exige reflexões por parte dos órgãos de saúde.

Em relação à covid-19, o desafio reside na percepção equivocada da população de que a pandemia acabou e a doença não é mais importante – o que leva à baixa procura, embora ainda haja mortes entre os grupos de risco, com 68 registros neste ano no RS.

A vacina da dengue também preocupa especialistas – ainda que não haja dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde sobre a cobertura vacinal. Há grande procura em clínicas privadas, onde está em falta, devido à necessidade do fabricante de fornecer ao SUS – onde sobram imunizantes, dado que o restrito público-alvo (jovens de 10 a 14 anos) não tem se vacinado.

A segunda dose da vacina tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba) também é motivo de alerta, pois a cobertura cai significativamente em comparação à primeira (de 98,7% para 86% no RS), deixando uma parcela da população desprotegida. Do mesmo modo, a vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche) apresenta queda na dose de reforço (de 93,3% para 88,5%).

Ainda, a vacina da febre amarela desperta receio, pois a doença tem desfechos graves e está associada a mortes, reforça Gewehr, destacando que a cobertura tende a baixar após surtos diminuírem – e está “muito aquém” do necessário tanto no RS (72,6%) quanto no Brasil (73%).

Embora tenha bons índices (92% e 95%), o imunizante para pneumonia exige atenção contínua para manter a alta adesão – a bactéria causa doenças graves e mortes. A poliomielite também é motivo de alerta, já que o vírus ainda circula em outros países e pode ser reintroduzido.

A preocupação se estende para a ausência de importantes vacinas no calendário do SUS, como as doses contra a dengue para outras faixas etárias, VSR e herpes zóster, já disponíveis na rede privada, acrescenta Rizzo. As vacinas no calendário do SUS são obrigatórias, de acordo com a SES. Os imunizantes disponíveis na rede privada, por sua vez, são opcionais.

Novos imunizantes são rapidamente incorporados na rede particular. Para entrar no portfólio do SUS, entretanto, precisam passar por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que analisa prioridades, evidências científicas e compara benefícios, custos e orçamento.

Gaúcha ZH


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